quarta-feira, 14 de abril de 2010

...o que vem é perfeição!

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

(Poema em linha reta - Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)*

O que somos? Quem amamos? Como vivemos? A internet hoje responde a todas essas perguntas de forma rápida, só não sabemos até que ponto vai sua eficiência. Vivemos de aparências, de profiles felizes (e/ou apaixonados/cults/viajados/etc) no orkut, de msns "ocupados" e de reclamações e tiradas sarcásticas/engraçadas (ou nem tanto) no twitter. É a vida. Grande parte das pessoas acredita que você é aquilo que a sua rede social mostra para o mundo

Não adianta tentar fugir, praticamente todo mundo participa de alguma dessas redes sociais (facebook, twitter, orkut, sonico, tagged, formspring.me, skoob, filmow e taaantas outras por aí). A mais difundida no Brasil, no caso, o orkut, se tornou um aglomerado de aberrações, e infelizmente as classes mais pobres são as que mais se expõem de forma grosseira e sem a mínima noção de bom senso. Por isso mesmo blogs como o Blog da Pga e o Tolices do orkut fazem tanto sucesso. Rir da desgraça alheia, da falta de instrução e senso do ridículo, da ignorância, enfim, sempre deu ibope.

Acho que todo mundo tem um pouco de voyeur, a vida do outro sempre nos interessa um pouco, e algumas vezes, um muito. Por isso mesmo tantas pessoas investem em silicone, academia, clínicas de estéticas. Para parecer cada vez melhor por fora, pros outros, dentro dos padrões. E por nós mesmos o que estamos fazendo para melhorar a pessoa que somos? Quantos livros estamos lendo? Quantas boas ações estamos praticando? Por quantas pessoas estamos nos solidarizando? Quanto estamos nos preocupando com os desastres ambientais no mundo e quanto estamos fazendo para evitar que aconteçam?

Não, não quero parecer santa, nem politicamente correta, até porque não sou. O que quero é justamente desmistificar a perfeição tão cultuada, tão ideal. O que quero é fazer com que mais pessoas pensem no que estamos fazendo para ser pessoas melhores pro mundo melhor que queremos criar. Mas pessoas melhores de cabeça, alma, espírito, coração. Não apenas robôs geneticamente modificados e sem opinião. Pessoas para fazerem a diferença, mas não pessoas perfeitas. Perfeição, jamais.

"Perfeição demais me agita os instintos... Quem se diz muito perfeito, na certa encontrou um jeito insosso pra não ser de carne e osso, pra não ser carne e osso..."
(Carne e osso - Zélia Duncan)

*Esse é um dos meus poemas preferidos, do heterônimo de um dos meus poetas preferidos.

8 comentários:

Bel disse...

Primeirona????

Bel disse...

Também gosto muito de Pessoa, e mais ainda dos textos corridos, poesia quase prosa... onde ele diz tudo aquilo que estava engasgado em minha garganta, e só não saiu porque eu engoli... glup.

Perfeição é mesmo coisa só pra Deus. Eu não sou deusa, portanto, nada perfeita. E acho um saco ter que posar de mãe-perfeita, filha-perfeita, esposa-perfeita, profissional-perfeita... Porque sempre será só pose, nada além disso.

Mas, fala sério, esse seu texto foi perfeito, viu??? ;)

Bjoooo

Constância disse...

Amigaaa!!!
Que engraçado, acabei de escrever sobre perfeição e vim dar uma visita ao seu bluóg.O que eu encontro? O msm tema! rsrs
Ainda bem temos defeitos, se não seríamos tão chatas...

Amo-te!

Anna disse...

Ju, adorei o post! Tenho pensando uito sobre isso, li "Divã", da Martha Medeiros recentemente, e em um capítulo ela discorre exatamente sobre isso. Fazemos questão de, aos olhos dos outros, parecermos perfeitos, santos, exemplos, e ficamos tão felizes quando somos exaltados por essas características que apesar de poderem ser nossas verdadeiramente, mascaram aquilo que temos de ruim. Não existem perfeitos, todos, no fundo, temos um quê de sujeira, de más intenções, mas elas ficam reprimidas por convenções sociais, pelo bem da boa educação, da boa aparência, etc, etc.
A internet só evidencia isso.
Estamos, na verdade, enganando todo mundo.
Beijos

Flor da Pele disse...

Concordo com o que você escreveu!!!
Tem muita gente bancando a(o) perfeitinha(o)o tempo todo. Sei lá, esses tipos de pessoas me cansam demais.

Tá certo que a sociedade nos obriga(quase)sempre a estarmos dentro dos padrões por ela estabelecidas, tipo: forma física, intelectual,social, moda etc; realmente é uma pressão muito grande. Mas, tento me deter apenas as coisas que são realmente relevantes para mim e para as pessoas que estão próximas.

O que me importa de verdade, é se, as coisas me vestem e se são verdadeiras. Pô, fala sério, se não cansa posar de boa moça sempre?! Confesso, que antes eu era muito mais preocupada em agradar, hoje, o que mais quero é, me agradar!!! rsrsr...
E oh,me sinto muito mais leve!!!


Bjus Júuuu!!!


PS: Texto delicioso de ler! /:*\

luluonthesky disse...

Amo Fernando Pessoa e sempre me identifico com as poesias dele. Qto ao Orkut tá aberração demais, até evito de entrar muito lá só pego recado e mais nada, povo não tem o minimo de bom senso.
Big Beijos

Livia disse...

Realmente, perfeição é um saco. O pior é que não se agrada ninguém. Sempre tem uma reclamação! Te amo. Beijos.

Taís disse...

Eita, vc matou a pau nesse texto.
Concordo contigo em gênero, número e grau!
A vida anda meio corrida e atrapalhada, mas sempre dou uma passada por aqui, msm q as vezes não comente. Gosto muito daqui.
bjos