sexta-feira, 21 de maio de 2010

Porque se for pouco, eu não quero*

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoraçao ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia."
Martha Medeiros (trecho de Divã)
Eu acho que não vale a pena viver de aparências, de exaltar o que é aceitável aos olhos dos outros, de se preocupar demasiadamente com o que é visto como 'correto'. Tá certo, vivemos em sociedade e ninguém vai sair por aí enlouquecendo, concordo. Mas, convenhamos, a vida certinha demais é muito chata. Não provoca, não anima, não desconserta, tudo bem, não faz sofrer, mas também não faz feliz. Não aquela felicidade de estufar o peito, de chegar aos olhos, de embriagar e transformar tudo.
A gente é feliz com coisas simples, mas simplicidade não significa mediocridade. Simplicidade é um abraço delicioso ao acordar, é poder segurar a mão de quem você ama na pizzaria, é conversar até altas horas na madrugada e se sentir mais próxima de uma amiga querida, é descobrir que seu cabelo acordou tão lindo como se você tivesse ido ao cabeleireiro e gasto uma fortuna com ele. Mas principalmente a felicidade é viver intensamente, errar, sofrer, aprender, dar a volta por cima, se sentir de alma lavada, perceber depois de um tempo que tudo passou e com isso que você viveu tudo o que tinha para viver, fez o que podia para dar certo e se reconstruiu para uma nova fase. Afinal, a vida é feita de ciclos.
Viver intensamente é aproveitar a vida em seus excessos. Começou um relacionamento? Seja feliz pra sempre, mesmo que o 'pra sempre' um dia acabe. Apenas você pode saber o amor que traz dentro do peito, ninguém mais está apto para julgar. Se acabou, você tem todo o direito de sofrer como bem quiser. Coisa mais chata as pessoas quererem que fiquemos bem instantaneamente. Todo mundo tem seu tempo. De construir e reconstruir. Ninguém tem botão liga-desliga, sentimos falta dos relacionamentos, dos momentos em que fomos mais felizes, de tudo o que nos fez amar tal pessoa, essa nostalgia que a gente sente com os términos é normal. E mais, tem coisas que a gente sempre vai lembrar com carinho, mesmo que o amor não exista mais. Isso é fato. E quem pode nos culpar por isso? Porque acabou não significa que não valeu a pena, que não ficou nada de bom.
A vida é pra ser celebrada, não temida. Em todas as suas complexidades há que ser explorada. O que vivemos vira história, busca, ciência, aprendizado. As alegrias nos divertem, os obstáculos nos fazem crescer. Mas o mais importante é que a gente saiba o que nos faz bem, o que nos faz feliz, independente da opinião de A ou B. Viver requer uma boa dose de coragem, viver bem requer o equilíbrio entre a razão e a loucura.
"Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento." (Clarice Lispector)
*Me apoderando do slogan da minha amiga Intense.

8 comentários:

Zingara disse...

Todos os relacionamentos que entrei foi para dar certo, para ser PARA SEMPRE. Uma coisa bem exagerada. Mesmo. E, como você brilhantemente falou, não é porque acabaram que não deram certo... Deram certo e me fizeram feliz por um bom tempo.

Agora estou vivendo uma fase muito diferente de todas as outras que já tive, acho-a morna e sem atrativo. Sem exagero e intensidade. Com ela pareço estar realmente segura, e incólume a qualquer desavença. Mas por estar protegida DEMAIS é que eu não deixo A FELICIDADE penetrar. Que assim seja, mereço uma chuva fina agora. Chega de tempestades.

RESUMO: Ando me contentando com O MEDÍOCRE.

Texto muito reflexivo, adorei! ;)

Sarah disse...

Amei o texto!! =) bjs

Alice Voll disse...

eu sempre quis esse botão liga e desliga, qndo começarem a vender, certeza que compro!

Lulu on the Sky® disse...

Concordo com vc. A beleza da vida está na simplicidade de coisas q nem todo mundo sabe dá o devido valor. Felicidade existe.
Big Beijos

Sandra disse...

Concordo, afff como concordo. As palavras se tornam mais fortes na sua maneira doce, e verdadeira de escrever. Vivo intensamente um casamento que já dura 11 anos e posso dizer com toda a certeza: A intensidade faz toda a diferença. Estou procurando coragem para criar um blog e busco em suas palavras toda a inspiração de que preciso. Será que conseguirei algum dia essa façanha ? Sempre encontro forças em suas palavras. Te admiro muitissimo. bjoss

Dani disse...

Não que eu me contente com o pouco.
Mas, menos pode ser mais de vez em quando.
hahahahaha
beijooo


Faxina

Luciana Lís disse...

As palavras da Clarice couberam bem direitinho, sabe?

Inclusive, esse trechinho tem num banheiro lá do Boemia, e eu gosto demais! Como tu!

;***

Livia disse...

Ju... Nossa, como sempre com esses textos maravilhosos. No momento quero muito esse botão liga-desliga. Mas faz parte do relacionamento/fim de relacionamento esse 'luto'. É horrível.. Acho que meu botão está 'vermelho'; aquele em que não desligou totalmente o aparelho, quando se desliga no controle remoto. Enfim.. deixa pra lá. Te amo.