sexta-feira, 21 de junho de 2013

A democracia conveniente


“O Gigante acordou”, dizem em coro, mas eu o vejo sonâmbulo, tonto, sem direção e pisoteando todos aqueles que não estavam dormindo. Hoje era para ser um dia muito feliz, de mudanças pelas quais eu luto há bastante tempo, mas terminei o dia com o sentimento que fizeram uma festa na minha casa, eu ajudei a limpar, organizei, gastei meu tempo, dinheiro, disposição e me mandaram para a cozinha na hora de cantar os parabéns.

Construo a CSP Conlutas, a Fasubra, o SINTUFPI, o Movimento Mulheres em Luta e o PSTU, me organizo politica e sindicalmente por entender que somente unidos os trabalhadores e a juventude conseguem unificar suas pautas e ter foco para encaminhar suas demandas. Além de ser um direito garantido pela dita democracia, no instrumento chamado Constituição Federal.

Muitas pessoas foram torturadas e deram suas vidas para que eu desfrutasse desse direito e eu não abro mão dele, não tenho que pedir permissão a ninguém para exercê-lo, mas parece que muita gente faltou a essa aula de história. O sentimento anti-partidário, que evoca o fascismo e o nacionalismo, está ganhando proporções inimagináveis. Hoje, acredito que pela primeira vez na história da cidade de Parnaíba (Piauí), houve uma manifestação que reuniu cerca de três mil pessoas. Um feito para ser celebrado, diriam alguns. Não discordo do fato, mas tenho as minhas ressalvas. Que maravilha que as pessoas estão gostando das ruas! Que terrível que estejam expulsando àqueles que já estavam lá.

Não pude carregar a bandeira do meu partido porque temi pela minha integridade física, e a dos meus (poucos) camaradas. Fomos ameaçados por diversas pessoas que fizeram intervenções no carro de som: “não admitimos partidos!”, “quem quiser vestir camisa de partido, que o faça na sua casa”, “queimem e rasguem as bandeiras de partidos”. Já viajei mais de 30h num ônibus (isso sem contar a volta) para marchar – várias vezes – em Brasília, para acampar na Esplanada dos Ministérios, acordei de madrugada para tomar o Ministério do Planejamento, estive nas manifestações #contraoaumento em Teresina (primeiras manifestações populares na capital do estado do Piauí contra o aumento das tarifas de ônibus), estive nas greves das Universidades Federais, participei de atos, plenárias, congressos, encontros políticos diversos (sindicais, de mulheres, negrxs, LGBTs), sempre com o coração feliz, certa de estar lutando pelos direitos dos trabalhadores, da juventude, dos oprimidos, pelo ideal de um mundo melhor, pensando não em mim, mas em todos, coletivamente.

Hoje eu fui subjugada, agredida moralmente e marginalizada. Incrivelmente, não pelo Governo, que me explora e oprime cotidianamente, mas pelos meus próprios pares, àqueles por quem eu luto diuturnamente, ainda que eles nem saibam disso. Não desisti, mas confesso que chorei em diversos trechos do percurso, tentando juntar os cacos de dignidade que me sobraram. Não me surpreendi com a despolitização geral do movimento, afinal, pra quê uma manifestação precisa de organização, né? Todo mundo reivindica o que quer, desde o seu PS4 até cerveja mais barata, passando, inclusive, por “sambar na cara de Satanás”, como diria um cartaz da “Irmã Zuleide”. Tentei, mas não consegui entender que um travesti estivesse se manifestando contra a homofobia com um cartaz homofóbico (que dizia “O SUS não tá curando nem virose quanto mais viadagem). Protesto vazio contra tudo e contra todos, o mal em geral e tudo mais que alguém achar que não deve ser assim.

Em Teresina, não foi diferente. Tivemos camaradas agredidos fisicamente e o tempo inteiro fomos vaiados, xingados e achincalhados. Entoavam “vem pra rua”, mas o convite era apenas se você se enquadrasse no “padrão Globo de qualidade” para manifestantes, vestidos de branco, protestando pacificamente, pedindo permissão para as “autoridades” e propagando o apartidarismo em massa. Gritavam “sem violência” e nos agrediam de todas as formas. Protestavam contra a repressão e tentavam nos enquadrar aos moldes do que cada um tinha adicionado como item importante na sua “cartilha do manifestante”. Diziam “todos os partidos são corruptos, quando chegam ao poder, fazem sempre a mesma coisa” e nunca leram, sequer conhecem os programas dos partidos, muito menos do meu, que não almeja o Governo, mas destituí-lo por meio de uma revolução socialista e que só participa das eleições porque é um meio de conseguir espaço para mobilizar mais pessoas, além de apresentar-se como uma alternativa ao trabalhador, para que as suas demandas sejam pautadas.

Enquanto isso, boa parte tirava fotos para compartilhar no Instagram e Facebook, cumprindo o seu papel social de mudar o Brasil. Manifestar tá na moda, é legal, te faz revolucionário, pra quem quiser se sentir mais integrado ao movimento, tem até camiseta vendida a preço de banana que diz que “o filho teu não foge à luta”. Se tivesse cordão de isolamento, poderia bem ser uma micareta, mas como em Teresina tem o maior corso do mundo (oba!), talvez seja só uma prévia carnavalesca.

Pelas notícias que vi, não foi muito diferente de outras capitais, considerando-se as devidas proporções. Não foram apenas as bandeiras de partidos que sofreram, mas também as de movimentos feministas, de negros, LGBTs, centrais sindicais, etc. Afinal, isso não é democracia? A maioria “vence”. Não se surpreendam se na semana que vem impedirem mulheres, negros e gays de se manifestarem, afinal, são minorias, não representam o movimento, são oportunistas que se utilizam de uma manifestação do povo para aparecer, tê-los participando significa que são eles que estão liderando. Não importa que eles tenham direito de organização e livre manifestação, a manifestação não é deles e eles podem muito bem ir incomodar em outro lugar, silenciosamente, de preferência.

Também publicado no blog da Lola: Ei, vc que acordou, não hostilize quem nunca dormiu.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

.porque eu preciso do feminismo.

Sou homem.

Quando nasci, meu avô parabenizou meu pai por ter tido um filho homem. E agradeceu à minha mãe por ter dado ao meu pai um filho homem. Recebi o nome do meu avô.

Quando eu era criança, eu podia brincar de LEGO, porque "Lego é coisa de menino", e isso fez com que minha criatividade e capacidade de resolver problemas fossem estimuladas.

Ganhei lava-jatos e postos de gasolina montáveis da HotWheels. Também ganhei uma caixa de ferramentas de plástico, para montar e desmontar carrinhos e caminhões. Isso também estimulava minha criatividade e desenvolvia meu raciocínio, o que é bom para toda criança.

Na minha época de escola, as meninas usavam saias e meus amigos levantavam suas saias. Dava uma confusão! E então elas foram proibidas de usar saias. Mas eu nunca vi nenhum menino sendo realmente punido por fazer isso, afinal de contas "Homem é assim mesmo! Puxou o pai, esse danadinho" - era o que eu ouvia.

Em casa, com meus primos, eu gostava de brincar de casinha com uma priminha. Nós tínhamos por volta de 8 anos. Eu era o papai, ela era a mamãe e as bonecas eram nossas filhinhas. Na brincadeira, quando eu carregava a boneca no colo, minha mãe não deixava: "Larga a boneca, Netinho, é coisa de menina". E o pai da minha priminha, quando via que estávamos brincando juntos, de casinha, não deixava. Dizia que menino tem que brincar com menino e menina com menina, porque "menino é muito estúpido e, principalmente, pra frente". Eu não me achava estúpido e também não entendia o que ele queria dizer com "pra frente", mas obedecia.

No natal, minha irmã ganhou uma Barbie e eu uma Beyblade. Ela chorou um pouco porque o meu brinquedo era muito mais legal que o dela, mas mamãe todo ano repetia a gafe e comprava para ela uma boneca, um fogãozinho, uma geladeira cor-de-rosa, uma batedeira, um ferro de passar.

Quando fiz 15 anos e comecei a namorar, meu pai me comprou algumas camisinhas.
Na adolescência, ninguém me criticava quando eu ficava com várias meninas.
Atualmente continua assim.

Meu pai não briga comigo quando passo a noite fora. Não fica dizendo que tenho que ser um "rapaz de família". Ele nunca me deu um tapa na cara desconfiado de que passei a noite em um motel.

Ninguém fica me dando sermão dizendo que eu tenho que ser reservado e me fazer de difícil. Ninguém me julga mal quando quero ficar com uma mulher e tomo a iniciativa.

Ninguém fica regulando minhas roupas, dizendo que eu tenho que me cuidar.
Ninguém fica repetindo que eu tenho que me cuidar porque "mulher só pensa em sexo".

Ninguém acha que minhas namoradas só estavam comigo para conseguir sexo.
Ninguém pensa que, ao transar, estou me submetendo à vontade da minha parceira. Ninguém demoniza meus orgasmos.

Nunca fui julgado por carregar camisinha na mochila e na carteira.
Nunca tive que esconder minhas camisinhas dos meus pais.

Nunca me disseram para me casar virgem por ser homem.
Nunca ficaram repetindo para mim que "Homem tem que se valorizar" ou "se dar ao respeito". Aparentemente, meu sexo já faz com que eu tenha respeito.

Quando saio na rua ninguém me chama de "delícia".
Nenhuma desconhecida enche a boca e me chama de “gostoso” de forma agressiva.
Eu posso andar na rua tomando um sorvete tranquilamente, porque sei que não vou ouvir nada como “Larga esse sorvete e vem me chupar”. Eu posso até andar na rua comendo uma banana.

Nunca tive que atravessar a rua, mesmo que lá estivesse batendo um sol infernal, para desviar de um grupo de mulheres num bar, que provavelmente vão me cantar quando eu passar, me deixando envergonhado.

Nunca tive que fazer caminhada de moletom porque meu short deixa minhas pernas de fora e isso pode ser perigoso.
Nunca ouvi alguém me chamando de “Desavergonhado” porque saí sem camisa.
Ninguém tenta regular minhas roupas de malhar.
Ninguém tenta regular minhas roupas.

Eu nunca fui seguido por uma mulher em um carro enquanto voltava para casa a pé.

Eu posso pegar o metrô lotado todos os dias com a certeza que nenhuma mulher vai ficar se esfregando em mim, para filmar e lançar depois em algum site de putaria.

Nunca precisaram criar vagões exclusivamente para homens em nenhuma cidade que conheço.

Nunca ouvi falar que alguém do meu sexo foi estuprado por uma multidão.

Eu posso pegar ônibus sozinho de madrugada.
Quando não estou carregando nada de valor, não continuo com medo pelo risco de ser estuprado a qualquer momento, em qualquer esquina. Esse risco não existe na cabeça das pessoas do meu sexo.

Quando saio à noite, posso usar a roupa que quiser.
Se eu sofrer algum tipo de violência, ninguém me culpa porque eu estava bêbado ou por causa das minhas roupas.
Se, algum dia, eu fosse estuprado, ninguém iria dizer que a culpa era minha, que eu estava em um lugar inadequado, que eu estava com a roupa indecente. Ninguém tentaria justificar o ato do estuprador com base no meu comportamento. Eu serei tratado como VÍTIMA e só.

Ninguém me acha vulgar quando faz frio e meu “farol” fica “aceso”.

Quando transo com uma mulher logo no primeiro encontro sou praticamente aplaudido de pé. Ninguém me chama de “vagabundo”, “fácil”, “puto” ou “vadio” por fazer sexo casual às vezes.

99% dos sites de pornografia são feitos para agradar a mim e aos homens em geral.
Ninguém fica chocado quando eu digo que assisto pornôs.
Ninguém nunca vai me julgar se eu disser que adoro sexo.
Ninguém nunca vai me julgar se me vir lendo literatura erótica.
Ninguém fica chocado se eu disser que me masturbo.

Nenhuma sogra vai dizer para a filha não se casar comigo porque não sou virgem.

Ninguém me critica por investir na minha vida profissional.
Quando ocupo o mesmo cargo que uma mulher em uma empresa, meu salário nunca é menor que o dela.
Se sou promovido, ninguém faz fofoca dizendo que dormi com minha chefe. As pessoas acreditam no meu mérito.
Se tenho que viajar a trabalho e deixar meus filhos apenas com a mãe por alguns dias, ninguém me chama de irresponsável.

Ninguém acha anormal se, aos 30 anos, eu ainda não tiver filhos.

Ninguém palpita sobre minha orientação sexual por causa do tamanho do meu cabelo.
Quando meus cabelos começarem a ficar grisalhos, vão achar sexy e ninguém vai me chamar de desleixado.

A sociedade não encara minha virgindade como um troféu.

90% das vagas do serviço militar são destinadas às pessoas do meu sexo. Mesmo quando se trata de cargos de alto escalão, em que o oficial só mexe com papelada e gerência.

Se eu sair com uma determinada roupa ninguém vai dizer “Esse aí tá pedindo”.

Se eu estiver em um baile funk e uma mulher fizer sexo oral em mim, não sou eu quem sou ofendido. Ninguém me chama de "vagabundo" e nem diz "depois fica postando frases de amor no Facebook".
Se vazar um vídeo em que eu esteja transando com uma mulher em público, ninguém vai me xingar, criticar, apedrejar. Não serei o piranha, o vadio, o sem valor, o vagabundo, o cachorro. Estarei apenas sendo homem. Cumprindo meu papel de macho alpha perante a sociedade.
Se eu levar uma vida putona, mas depois me apaixonar por uma mulher só, as pessoas acham lindo. Ninguém me julga pelo meu passado.

Ninguém diz que é falta de higiene se eu não me depilar.

Ninguém me julgaria por ser pai solteiro. Pelo contrário, eu seria visto como um herói.

Nunca serei proibido de ocupar um cargo alto na Igreja Católica por ser homem.

Nunca apanhei por ser homem.
Nunca fui obrigado a cuidar das tarefas da casa por ser homem.
Nunca me obrigaram a aprender a cozinhar por ser homem.
Ninguém diz que meu lugar é na cozinha por ser homem.

Ninguém diz que não posso falar palavrão por ser homem.
Ninguém diz que não posso beber por ser homem.

Ninguém olha feio para o meu prato se eu colocar muita comida.

Ninguém justifica meu mau humor falando dos meus hormônios.

Nunca fizeram piadas que subjugam minha inteligência por ser homem.

Quando cometo alguma gafe no trânsito ninguém diz “Tinha que ser homem mesmo!”

Quando sou simpático com uma mulher, ela não deduz que “estou dando mole”.

Se eu fizer uma tatuagem, ninguém vai dizer que sou um “puto”.

Ninguém acha que meu corpo serve exclusivamente para dar prazer ao sexo oposto.
Ninguém acha que terei de ser submisso a uma futura esposa.

Nunca fui julgado por beber cerveja em uma roda onde eu era o único homem.

Nunca me encaixo como público-alvo nas propagandas de produtos de limpeza.
Sempre me encaixo como público-alvo nas propagandas de cerveja.

Nunca me perguntaram se minha namorada me deixa cortar o cabelo. Eu corto quando quero e as pessoas entendem isso.

Não há um trote na USP que promove minha humilhação e objetificação.

A sociedade não separa as pessoas do meu sexo em “para casar” e “para putaria”.

Quando eu digo “Não” ninguém acha que estou fazendo charme. Não é não.

Não preciso regrar minhas roupas para evitar que uma mulher peque ou caia em tentação.

As pessoas do meu sexo não foram estupradas a cada 40 minutos em SP no ano passado.
As pessoas do meu sexo não são estupradas a cada 12 segundos no Brasil.
As pessoas do meu sexo não são estupradas por uma multidão nas manifestações do Egito.

Não sou homem. Mas, se você é, é fundamental admitir que a sociedade INTEIRA precisa do Feminismo.
Não minimize uma dor que você não conhece.