terça-feira, 1 de outubro de 2013

Embriaguez


Ainda que meio bêbada, sou a melhor opção que você tem. Que ironia hoje eu ter me rebelado e não estar em casa, não? Encontrar você aqui na porta do prédio, me esperando, é que é uma surpresa. Mas, enfim, que outra mulher exigiria tão pouco quanto eu? Que outra mulher te esperaria em horários tão terríveis e se submeteria a ser convenientemente cega, surda e muda ao que você faz longe de mim? Isso sem falar no que você faz perto, ao celular, essa maldita invenção tecnológica que te rouba de mim e me faz engolir lágrimas, ao sabor das tuas mentiras. Não venha me dizer que eu não fui enganada, essa desculpa batida de quem não tem argumentos para as suas escapadas, eu sei de tudo desde o princípio, eu só não sabia antes o quanto me magoaria mesmo assim. 

Você não gosta da minha embriaguez, isso eu vejo nos seus olhos, mas me diga, como me manter sóbria estando à beira da insanidade? Eu não esperava você aqui hoje, não aguentava mais esse peso sufocante que eu tenho aqui dentro e fui fazer o que sei melhor, lamber minhas feridas, sair da realidade, procurar um escape desse amontoado de hipocrisia em que vivo. Eu sou uma pessoa boa, sabe? Legal. Bonita. Inteligente, dizem. Mas não deve ser verdade, já que estou nessa situação com você e me deixo iludir com falsas esperanças todas as vezes que explodo e você percebe que não vou agüentar mais. Meus ultimatos não fazem mais nenhum efeito, não é? Você não passa de um egoísta. Você vê tudo o que faz comigo, mas parece que não se comove, não tem interesse nenhum no que eu sinto. Não me quer, mas não me larga. Gosta de mim apenas o suficiente para não me deixar em paz. 

Não é que eu tenha planejado essa vida de ser relegada, maltratada, preterida. Meu amor próprio era praticamente intacto antes de te conhecer. Ninguém planeja ter seus sonhos destruídos, ter seu amor maculado de defeitos e se sentir insegura ao ponto de não se afastar de algo doentio, que só faz mal. Eu me apaixonei por alguém que não se apaixonou por mim e não teve a decência de se afastar. Me manteve à mercê dos meus sentimentos, por ser simplesmente cômodo ter alguém que o adora sem pedir nada em troca. Você me roubou o que havia de mais bonito em mim, a minha inocência. Não sei mais como acreditar em outro amor, depois de você. Vejo tudo com tão amargo ceticismo, duvido dos relacionamentos felizes, desdenho dos apaixonados. Coitados, não sabem o sofrimento que os esperam.

O que você esperava? Que eu fosse grata por todo o sofrimento que você me trouxe? Desculpe, não vai rolar. Hoje, não. Eu devo ter tomado algum soro da verdade junto com todo aquele vinho. Pra ser ainda mais clara, o que você tá fazendo aqui? Ela te liberou ou você está sendo um menino mau? Eu to bêbada, não tá vendo? Não adianta me recriminar, hoje eu vou te dizer tudo o que penso. Quem sabe assim você descobre que ainda tem um pouco de consciência e se afasta de mim, já que eu não consigo me desintoxicar dessa merda toda que é a nossa vida juntos. É tão patético. Me salve de mim mesma, por favor.

Mas, espere, onde você vai? Não, não vá embora. Eu disse que não consigo me livrar de você, não disse? E é verdade. Mas não é que eu não ame você, eu amo. Só você sabe me abraçar daquele jeito tão bom, me cobrindo inteira com seus braços e mordendo o cantinho entre a minha nuca e o ombro, só porque sabe que é o meu ponto fraco. E o seu cheiro é tão bom, meu Deus, não consigo passar na prateleira de desodorantes sem parecer uma idiota cheirando um Axe Twist. Me abandone, sim. Mas amanhã. Hoje eu tô bêbada e preciso de você me esquentando para não acordar com a sensação que tá faltando um pedaço. Eu posso lidar com o fim. Nesse minuto, tudo o que eu to falando é verdade e eu quero que você se lembre amanhã, só que releva por hoje? Porque hoje eu não consigo. Me abraça, entra, passa a noite comigo. E não me olhe como se eu fosse uma maluca, porque eu não sou. Bem, nem tanto. Não num nível que precise de intervenção médica, pelo menos. Sou mulher, só isso. Mudar de opinião e fazer drama são só algumas das características que eu não consigo me livrar. Eu amo você, vem, entra, me esquenta. Eu adorei que você veio sem avisar.

(Só para esclarecer aos desavisados: o marcador 'crônicas' quer dizer que os textos são fictícios e não correspondem à minha vida pessoal)