quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Ao amor que vai chegar


Ela não acreditava muito nisso de príncipe encantado. Achava que a sua ideia de perfeição não fosse a mesma da maioria das pessoas. Ela queria alguém que ela pudesse amar e viver sem, mas que apesar de tudo, escolhesse viver com. Alguém que ela pudesse amar apesar dos defeitos e da rotina. Alguém a quem ela admirasse e gostasse de ter por perto, pelo simples prazer da companhia. Sem cobranças de felizes para sempre, apenas usufruindo cada dia de uma vez. Não que ela tenha nascido sem sonhos de amor eterno, mas eles amadureceram com o tempo e evoluíram para algo mais tranquilo dentro dela. Ela não precisava mais de grandes demonstrações públicas de afeto, mas de alguém que segurasse a sua mão no dia em que ela recebesse uma notícia ruim.

Ela não diminuiu a intensidade dos seus sonhos, apenas os trocou por algo que concluiu ser mais real. Ela já havia amado e sido magoada e durante um tempo se questionou acerca do destino, da vida, de tudo. Como pode ela ter amado tanto alguém e no final a única coisa que ainda a fazia lembrar dele era quando ia ao cinema e não conseguia entender a moral da história dos filmes? Ele sempre lhe explicava pacientemente qual foi a trama que se sucedeu em Onze Homens e Um Segredo, sem reclamar, sem perder a paciência. Ela achava incrível como algo tão banal pode ter sido o que ficou gravado mais forte na memória ou o que ela realmente sentia falta. Beijos, abraços, sonhos e planos, esses ficaram esquecidos, não valiam mais a pena, não a interessavam mais.

As pessoas perguntavam e até cobravam um namorado, aquele discurso ridículo de que mulher só é realizada com um homem ao lado. Ela antipatizava com qualquer arranjo de encontro às cegas e vou-te-apresentar-o-primo-do-fulano-que-é-a-sua-cara. Ela tinha preguiça. De explicar que não queria qualquer um, que não estava desesperada, que gostava de não ter que dar satisfações, de poder viajar sem consultar a agenda de ninguém, e, principalmente, ela tinha preguiça de plastificar um sorriso no rosto e conversar amenidades com alguém tão entusiasmado quanto ela. Como tudo o mais na sua vida, ela não queria que fosse ensaiado. Ela sabia que iria encontrá-lo, só não sabia quando, nem como, mas tinha essa fé inabalável: ele também estava por aí, procurando por ela. Ela se sentia bem só de pensar que esse alguém já existia no mundo e adorava imaginar o que ele poderia estar fazendo e como seria quando se encontrassem, onde estariam, o que vestiriam. Parecia tão utópico que ela não contava pra ninguém. O seu maior segredo era ter tanto amor dentro de si, intacto.

Ela seguia sua vida. Trabalhava, estudava, era independente. Defendia as causas sociais porque sempre acreditou que o coletivo sobrepunha o individual. Saía, dançava, se divertia. Lia seus livros. Ia na academia, extrapolava as calorias, comprava roupas novas. Ela não tinha pressa, só vontades, não  se sentia como se estivesse faltando algo, mas na expectativa do que estava por vir, daquelas coisas intangíveis. Ela sentia falta de atenção, de um carinho furtivo, daquela mão para segurar a sua num passeio no parque no domingo à tarde, de alguém que a protegesse da chuva no caminho até o carro, ao sair de um restaurante, não porque ela não pudesse fazer tudo isso sozinha, mas pela gentileza da intimidade compartilhada. Ela não queria nenhum conto de fadas, loucuras de amor, nada desse tipo, isso só funcionava nos filmes, na vida real, o que importava eram as coisas mais simples. Ela acalentava seu coração com sonhos doces, gostava de pensar que um dia sua fantasia ganharia corpo e vida e enfim ela poderia conhecer aquele a quem ela já amava havia muito tempo.


*Texto antigo, anteriormente publicado n'O Caju, e agora remodelado.


(Só para esclarecer aos desavisados: o marcador 'crônicas' quer dizer que os textos são fictícios e não correspondem à minha vida pessoal)

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